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Sábado, Janeiro 14, 2012


Zilma tinha razão

Zilma sabia que nunca mais nos veríamos. Quando olhou em meus olhos, e os seus se encheram de lágrimas, sabia. Poderia não saber assim, com palavras, mas sabia daquela sabedoria que as mulheres têm, aquela que vem muito antes da palavra enunciada, aquela que denuncia a realidade bruta, foi assim que Zilma soube que não nos veríamos nunca mais. Como pôde chorar nestes tempos? Tinhamos, então, todas as formas possíveis para que a distância não se fizesse presente, ou ao menos que não se fizesse completa. Afinal, nestes tempos, com estes aparatos de modernidade, quão fácil poderia ser uma conversa, uns olhares, umas lembranças? Mas Zilma sabia, como hoje eu também sei, que não nos veríamos mais. Por isso chorava. Sabia que hoje, depois de tantos anos, teria dificuldade em lembrar seu nome, para que dela pudesse escrever. Do mesmo modo como mal me lembrei de John, o português. Lembro-me dele dizendo bonachão: I like to take care of my people . Lembro-me dele juntando moedas, que no final do ano renderiam um bom dinheiro, suficiente para levar a esposa e filhos para a costa oeste, em férias. Lembro-me que, ao entrar na loja, às seis da manhã, enfadonho, John já entrava no segundo emprego – entregara jornais ao longo da madrugada. E já me fogem da memória as histórias do Ney, carioca inveterado, cujo sonho era andar de Audi ao redor da lagoa Rodrigo de Freitas. Até mesmo a gentileza do coração do Ney eu hoje me esforço em lembrar. Pois era justamente a ele que eu confidenciava minhas agruras, meus dissabores profundos, e ele escutava tudo e dizia sorrindo como tudo haveria de ficar bem.

Quando voltei, e me vi de novo em casa, feliz e triste e agradecido e magoado, decidi escrever sobre eles todos, e sobre mais um monte de gente. Nunca sentei à máquina para fazê-lo, por medo, preguiça, ou pela ingênua crença adolescente de que as coisas não passam, não perecem. Passados os anos, sequer a memória das pessoas com quem convivi, e das coisas que vivi persiste. Passei estes anos todos com estas lembranças adormecidas, como se o tempo estivesse congelado, e como que, se por acaso eu lá voltasse, estariam Zilma a fazer os bolos, John a cuidar de sua gente, e Ney a disparar doçuras gentis. Mas eles não estão mais lá, e nunca mais nos veremos. Não há reparação possível para anos de ausência, mas a pouca memória que ainda me resta faz com que eu sinta, em mim, suas presenças. Sorte a todos nós, desejo, mas hoje sei que nunca mais nos veremos. Zilma sempre soube, e por isso chorou. Zilma tinha razão.


Segunda-feira, Fevereiro 21, 2011


Do lugar onde brotam as fantasias, lá no Morro do Homem que Dorme, terra protegida do Solar das Almas, colhi uma. A encosta estava florida de fantasias, coloridas de tons contrastantes, fantasias que balançavam-se divertidas ao sabor do vento. Colhi um cogumelo-magro, típico na região, especialmente bem-formado esta safra. Chapéu largo e suculento, sob um eixo fino, mas elegantemente posicionado e forte, gosto dava na gente de ver! Quem mais viu a fantasia que colhi não pode senão render-se à sua beleza, estava jóia. Ainda um ou outro disseram-me para não me ater demais na beleza de minha fantasia, posto que, no Morro do Homem que Dorme, tudo é efêmero. Veja, disse eu, otimista, efêmero sim, como o deserto do Leão da História sem Fim, mas também como este deserto, minhas fantasias se renovarão sempre, eternamente, a cada dia, e cada fantasia estará fora do tempo, enquanto forem minhas, e eu, no seio do mais puro efêmero, serei eterno. Cogumelo-magro, pensava, és meu e eu sou teu, sejamos um, faça-se dissolver na minha saliva, penetrar minhas células todas com teu caldo de terra e sal, e sol, e chuva. Um dia voltarei a ser eu o cogumelo, e me tomarás por ti.

Naquele dia não pude, contudo, ir até o fim. Algo detinha-me, não sei que, mas sei que vem de dentro, como se tivesse de olhar mais, acariciar mais, despejar mais sobre aquele cogumelo-magro meu desejo, puro, afeto. Há de.
Quando desapareceu do Solar o Morro do Homem que Dorme, tudo parecia ressignificado, e mesmo sem perceber acabei por estar aguardando a hora de subir novamente tuas encostas. Felicidade é coisa que desliga a gente do cotidiano. Não tem dia que passe, nem viventes, nem bichos. Felicidade parece dar, mas toma.
Toma a consciência e leva embora, num átimo de segundo, e só devolve quando quer, ou quando o cogumelo se estraga.

Mas isso não se daria, pois eu de tudo daria pra cuidar de minha fantasia, e nutri, e dei de mim uma parte em sacrifício, e comprei brigas, e gastei conchas de mar, carregadas de mar em si, para adorná-la. Eu queria ser fantasia.
Mas fantasia não se mistura na gente, fantasia vem como água da cachoeira, faz sentir-se, e forte, até massageia, molha até as concavidades nossas, ainda assim não se torna a gente. E assim se deu com o cogumelo-magro que eu colhi lá na encosta do Morro do Homem que Dorme, este que molhou de alegria até minhas concavidades, e depois morreu.

Daí em frente deu-se a tragédia, esse tipo de tragédia que tem aqui no Solar das Almas, e que eu chamo de Pequenas-Tragédias-Cotidianas. É aquela sorte de tragédia que só percebe quem está atento, muito atento, e quem pratica aquilo que em nós sente. No Solar as pessoas são assim, às vezes. Aliás, bem saiba, que a pequena tragédia cotidiana se dá quando os planos não se comunicam. Quando não há entidade capaz de comunicar os viventes do solar ao que não pertence, ao que está fora.
Pois foi justamente o que se sucedeu. Eu, em um ritual fúnebre e transcendente, preparei de meu cogumelo-magro uma dança de passos sutis, lentos, afetuosos, sempre afetuosos, a praticar afetos, atento. Da fantasia se fez dança, e da dança fui capaz de sentir arte. Sabe o que é sentir arte? Pois sentimos eu e meu cogumelo-magro morto.

Foi momento de criar memória. São bons esses momentos que criam memória. Acontecem sempre quando a gente fica atento, e pratica os afetos.
Mas de fora, d´outra parte da vida que nem sei onde, mas bem sei que de fora, veio o Estéril-ótipo, um tipo de ser que se dá na proporção áurea, embora não seja belo. Daí vejo que a beleza não deve ser apenas aquilo que a proporção manda, deve haver aí algo na dimensão do que não-se-diz, que faz ficarem bonitas as coisas. Aquilo que-não-se-diz deve explicar uma porção de beleza que tem nesse Solar, e que a gente mede, até de máquina de medir, pra saber como se dá tudo bonitinho na forma; mas o que não-se-diz, não se diz. Prova disso foi conhecer o Estéril-ótipo, que veio lindo e devorou a arte. E tomou para si a dança, e dela nada fez, senão auto-reverenciar-se. A fantasia morreu nas mãos da forma, a dança não se sentiu, frente ao equívoco da beleza geométrica, a arte não foi além de uma promessa.

Eu sou homem da arte, saiba o senhor. E no Solar, pode. E quieto eu não ficarei, pois aprendi que arte, para ser, carrega em si um bocado de dor também. Eu virei um grande depositário de estórias desde que no Solar cheguei, muitas delas são justamente essas pequenas-tragédias-cotidianas. Há que se negociar com elas, para que elas não nos brutalizem, bem como há que se negociar com as delícias, para que não nos desvirtuem.

Eu, em resposta à morte da fantasia que colhi no Morro do Homem que Dorme, fui recolher-me, em principio pequeno, depois enorme, n´outra fantasia, no colo de Lírio em Flor, que me ensinou a reagir ao meu próprio nome: Paulo, pequeno, ainda menor quando Paulinho, o querido, mas pequeno, Paulo. Aconteceu que eu nasci grande num nome pequeno, disse-me Lírio em Flor, e eu acreditei. Têm as pétalas cor de açaí, de querer morrer de beleza, e tem viço e sustância, no mais das divinas tetas, nas quais pude acostar sentir paz novamente.


Segunda-feira, Fevereiro 07, 2011


Ao invés de perturbar a Heitor com a mesma história repetidas vezes, sim, tendo a repetir muitas vezes as histórias quando me agradam, preferi contar-te por aqui, afinal, és justamente meu leitor desejado, é para ti que escrevo, como bem sabes.

Hoje, o solar das almas está jóia. Temos arte a subir pelas paredes, cheiro de aipo no vento, e estamos devidamente lubrificados e hidratados.
Quando é assim, emano gostosas ondas de bem querer, que atinge todo aquele que se dê a recebê-las. Veja você que, por tua causa, o solar das almas banhou-se em azul. Por tua causa, os bólidos que vez em quando cismam em tentar atropelar-me, hoje pararam a me esperar desfilar exuberante pelo meio da autovia. O rapaz que zelava pela mercearia dos homens-peixe deu-me toda licença para cruzar um cardume revolto em piruetas. Até Cecília, veja só! Até Cecília mandou um sinal vital (sim, por certo ainda rebelde, contudo, vital).

Comprei sardinhas, e Heitor zangou-se dizendo que eram os atuns requeridos para que ele pudesse elevar sua arte culinária aos mais altos índices. Para além da lógica, propus que sardinhas trituradas virassem atum, mas ele pacientemente me explicou que sardinhas são peixes muito pequenos, e atuns são peixes muito grandes, tratando-se, portanto, de diferentes espécimes. Ele a mim me ensina muito, ontem mesmo foi capaz de, sem qualquer exército, abrir a caixa dos metais eletrificados e fazer brotar dali uma porção de luminosidade, que se espalhou pelas paredes de minha morada.

Sempre que o solar fica desse jeito, te digo, algo há de acontecer, algo grandioso e significativo, há de ser assim, assim foi no curso dos tempos e assim ainda é. Que será isso que está por vir? Teria algo a ver com um caminho que só se trilha no escuro? Saberia eu trilhá-lo em plena luz do dia, e ver-te clara no solar das almas, de olhos bem abertos, corajoso e vigoroso, disposto a trilhar esta jornada que, sabemos, parte rumo ao nada?
Assim são as coisas do solar das almas, valem a pena por traçarem um caminho inexorável que ao final...

Como uma vez disse Clarice, aqui vivemos apesar de.


Segunda-feira, Janeiro 31, 2011


Um soneto que vive


Quantos serão os mistérios teus, se teus ois para mim são repletos de adeus?
Se são tão poucos teus fios de cabelo, tão escorregadios
E tão comportados, trançados ou não, como então
Neles me tens enlaçado, pequeno, erradio?

Quantas batalhas hei de enfrentar, que mares bravios, que amplidão
Se eu dia quiseres fazer-te meu lar; se um dia quisermos ser verso e rima.
Será quando do teu corpo surgir eu veja, (com o passar das mãos
pela tua silhueta), a mais fabulosa obra prima:

Nada, absolutamente nada que em ti já não seja!
E se me é presente a tua presença, seja eu outra vez criança.
E quando em mim atenta, seja eu o mais belo, para deleitar-te.

E se algum dia entrar-te em meu leito, vejamos aonde a delícia nos lança,
Teu nariz, minha pança, e os muitos nós em nós, até onde a voz alcança!
Meus sonhos são sonhos por fim, mas sei que és tu minha arte.


Segunda-feira, Dezembro 13, 2010


É tempo de escrever. Contar das coisas fantásticas que são. Das fantasias.
Tempo de pensar que é tempo de fazer alguma coisa. Tempo de fazer-se tempo.


A proximidade com o fim do ano traz, sazonal, a idéia de que é tempo de algo. De escrever, por exemplo. De tratar das mazelas da cuca. De pagar os impostos que só chegam junto com Jesus cristo. De tomar coca-cola.

Os Sonhos, será que se dão no tempo? Sonho daquele que se sonha a noite, não o sonho metafísico de almejar algo. Esta noite queimei a pele. No calor do plástico que protegiam os colchões da cama na casa de minha mãe. Havia plásticos cobrindo os colchões e neles eu queimei a pele. Por muitas horas, dormi enrolado em plásticos. Sonhos muito refinados esta noite, muitos personagens, enredos conspiratórios e paisagens futuristas, elevadores multidirecionais, rápidos corriam entre as luzes, a La 2001. A coca-cola estava lá. Atores de Hollywood e uns chineses velhos e sábios também. Moedas pelo carpete, butucas de cigarro, lições de vida, twists narrativos, um estúdio onde se gravavam telejornais. A mesma cena repetia-se, com distintas personagens, no melhor estilo Mullholand Drive. A pele ardia, no meu corpo que não acordava, ardia eu dentro e fora de meu sonho. Qual seria o filtro daquela câmera? Dormi por dezesseis horas suando nos plásticos que cobriam os colchões da cama. Ainda arde minha pele, e deseja água. Chove muito agora, do lado de fora. Eu, dentro da mesma casa ainda, tardiamente, desejo a água que jorra abundante fora do muro. Eu estou murado, e queria que os muros me mantivessem do lado que chora, com a chuva, como a chuva molha o Solar das Almas, o grande mundo. Eu estou murado, dentro da casa de minha mãe, e preciso sair. Seja para o Solar das Almas, onde perderam-se os hermafroditas primordiais, onde cai a chuva para fertilizar as Sementes de Alma; seja para limitá-lo, erguendo os muros onde, para minha felicidade e infortúnio, uns estarão murados, outros de fora.


Segunda-feira, Novembro 15, 2010


Gentes semibreves.

“Longa é a arte
Breve é a vida”


Sementes de alma
Dispersas no solar do Útero das almas,
Regadas com suor do Tempo
Geram Gentes Semibreves,
Perdidas na busca da outra parte,
Que no fio de cabelo dos Deuses
Fez perder-se...

Onde andará o primeiro hermafrodita?
Onde andarão as novas almas,
Que das sementes brotam?
E de que são feitas, elas, de tão rarefeitas?

Sopros da alma na carne das Gentes semibreves
São dores, serão dores sempre.

E seguem a habitar o Sempre, essas Gentes
Pela soma das semibreves!


Quarta-feira, Novembro 03, 2010


Nestes dias houve diversos momentos daqueles que criam memórias. É uma qualidade de momento capaz de saltar ao tempo, de parecer fora dele. Num átimo de semana, semana e meia, perdi uma avó – a última, toquei para milhares de pessoas, vivi uma eleição presidencial, acompanhei a primeira ida de meus pais à Europa, aniversariei dois irmãos. A intensidade dessas coisas que se me apresentam me encantam e apavoram. Ao que parece, também a intensidade e a dimensão das coisas são inversamente proporcionais à freqüência com que elas acontecem. Todos os eventos transcorridos, entretanto, ainda que repetíveis sistematicamente, dificilmente seriam atenuáveis, o que parece conferir-lhes esse status de superação frente ao cotidiano. Daí é que me vejo frente à metafísica das cousas, amedrontado e relutante, ainda com marcas fortes do ceticismo que durante tanto tempo presidiu-me a alma. Ainda que enrijecido internamente por essas concepções, hei de buscar uma outra via, mais aberta às coisas não ditas, benditas e inauditas.



Sexta-feira, Outubro 01, 2010


A queima persistente da brasa
Que no ar dissipa correntes de branco-sujo
Intensificam o desejo

Da chama permanente
Do pulmão elástico
Da névoa bailarina
Do prazer intenso.

Quando não mais exista a alva torrente
E faça-se ver o mundo novamente, sem intermédio,
Remédio!
De modo que, ao cabo desta hora
Serei prisioneiro-voluntário
do mais profundo sono.

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Há luzes que caminham furiosas
Que se chocam no teu corpo
E que ele, generoso, devolve ao vento.

Assim que – arrebatado
Por um turbilhão de luzes
Com tuas cores e sinuosidades –
Te faço presença.

E quando a onda imprecisa da voz que emanas
Aos ouvidos me conclama,
Decifro-te, e reclamas.

Mas como crer neste falso dissabor
Se entre-beijos se confunde,
E tão forte, e tanto,
A ponto de lançar, desavisada e rota,
E impregnada em vinho, e à deriva
A palavra amor.

Da Cultura não há como escapar às implicações.
Amor é palavra gasta pelas gentes.
Não fazem mais poemas de amor, os poetas
Tampouco o amor nos poemas se pode fazer presente.

Hoje dizemos da reflexão das luzes,
De ondas que se propagam,
Da Matéria indecisa de seu próprio ser-Matéria,
E dos hormônios que nos mentem
Fazendo-nos crer que há um Amor e
uns Deuses tomadores de vinho (como nós)
Esperando-nos hedonistas e nus em céus olímpicos.

Por tantas mentiras prévias a nós mesmos
Mentiras do Corpo, da Natureza
É que devíamos nós, no bojo da mais sábia ignorância
Amarmo-nos!


Quarta-feira, Setembro 22, 2010


Poder oficial e arte.

Acompanhar o noticiário é novidade; há muito que as coisas do cotidiano não despertavam interesse. O interesse pelo noticiário é tão sazonal quanto as eleições, ou os jogos olímpicos. Política deveria ser tema merecedor de maior reflexão; talvez não no sentido de masterizarmos os grandes pensamentos políticos, entendermos o Leviatã, A Política ou O Príncipe (embora saibamos todos que mal não faça). A própria possibilidade de não incomodar-se com o cotidiano da Política é um sinal de que as coisas caminham com certa regularidade, corroborando a máxima de que uma vida estupidificada é uma vida feliz.

Sob esse prisma, acompanhar os sedentos candidatos em sua incansável busca por influência, dinheiro e poder é risível. Faz sentido ao Lugar Comum imaginar que a vida seja uma promessa de infinita alegria quando se tem muito poder. Basta observar atentamente o semblante de quaisquer Poderosos para perceber que as rugas da testa lhes são muito maiores que os milhões de suas contas bancárias. Há ricos felizes? Obviamente que sim. Entretanto, a brincadeira do Poder parece muito mais auto-referencial do que social, política ou financeira.

Observemos a nova onda da política nacional: um enxame de ex-cantores, ex-apresentadores, ex-‘artistas’ (?!), ex-atletas, ex-qualquer-coisa-que-esteve-outrora-sob-os-holofotes. Imagina-se que o desespero maior desta classe de ‘ex’ seja a falta do dinheiro, ou de perspectiva. Eu penso que não. O problema é Narcísico. Psicanálise resolveria a grande maioria dos casos. Sem a possibilidade de manter uma carreira artística (que demanda trabalho árduo e exercício criativo constante), a categoria dos ‘ex’ encontra na política uma maneira de manter-se em evidência, sem a necessidade de pensar demais, sem o permanente incômodo com as suas reais faltas de talento, e com os louros de salários milionários (e demais benesses parlamentares). É a saída fácil para um incômodo da existência. O que os ‘ex’ não sabem, ou apenas fingem não saber, é que existem forças políticas efetivamente perversas (também no sentido psicanalítico) que governarão em seu lugar.

O fenômeno, entretanto, parece internacional; para que se faça política em tempos de mass media, é necessário ser (ou ao menos parecer) uma estrela. Sorte das democracias que possuem estrelas formadas em Harvard.


Quarta-feira, Agosto 11, 2010


Na Umbanda

Sim, estou informado sobre a polidez intelectual dos meus leitores. Não serei ingênuo, portanto, a ponto de entrar num debate religioso. Sabemos, como doutos que somos, que o assunto já se faz amplamente abordado por gente muito sabida, e que toda possível opinião não passará de um badulaque desnecessário e de má qualidade.

Fui, entretanto, ao terreiro, e isto sim vale a narrativa. Não falo de uma narrativa extensa, dessas que pretendem dar tudo a entender, preenchendo a mente do leitor com todas as cores e volumes e perfumes. Falando francamente, nada se passou ali que eu já não esperasse. Sincretismo religioso, dança, canto, pontos desta e daquela entidades espirituais.

O dado curioso desta visita (finalmente onde queria chegar) deu-se no momento em que estabeleci meu diálogo com a entidade do Índio. Estava eu - nitidamente constrangido pela falta de hábito em falar com espíritos - frente à um homem alto, de corpo forte e tatuado, olhos fechados, tomado da entidade da Pena Preta, o indígena. Perguntou-me o que me tirou o sono na outra noite. Não lhe disse, não sabia ao certo o que dizer, quase tudo, afinal, me tira o sono. Insistiu uma, duas, trez vezes: O que n' outro dia te tirou o sono? frente à minha pouca colaboração, teceu logo seu diagnóstico. Reconheceu-me como um racionalista, cientificista e metódico, e disse-me: tudo o que precisar encontrará na cabeça, não no coração. Tudo está posto, e tudo é em potência, basta verter em realidade aquilo que hoje mora na tua cabeça, em projeto.

Obviamente ele não usou estas palavras, nem foi tão claro. Pode ser que não tenha dito nada disso. O que eu estou certo de compreender foi a fabulosa conclusão: você não precisa vir aqui, e ainda assim será bem vindo se vier.

Passei oito anos saltando entre a cadeira do terapeuta e o divã do psiquiatra, nenhum deles nunca cogitou a possibilidade de que eu eu fosse uma pessoa sã. Um espírito me deu alta em três minutos de bate-papo. Tenho de considerar que alguem aí esteja errado.


Sábado, Julho 10, 2010


Das flores e suas atividades de vida e morte.

De todas as coisas que se pode ter numa casa, a mais triste é a flor. Agora mesmo, estava eu a ajeitar duas flores mortas num copo d' agua, botando em riste suas cabeças bambas, sem me aperceber de que, ainda que as pudesse colocar de volta em pé, não conseguiria conferir-lhes sequer um átimo de vida a mais.

Tão importante quanto serem belas as flores, são boas ouvintes, pode-se conversar com elas, vê-las crescer, e elas se dão generosamente como dois grandes ouvidos que não fazem outra coisa senão ouvir, impassíveis. Lembro com nítidos contornos da brincadeira que faziamos quando crianças, de pegar uma flor específica (cujo nome jamais soube) da árvore planatada na frente do muro da casa onde morava minha avó, ou talvez estivesse a árvore do outro lado da rua, não importa, ainda assim pegavamos as flores, criávamos na flor a imagem de uma bailarina, e, ao despetalarmos, despíamos por analogia a moça. Tira a saia, tira a meia, tira a sapatilha, pétala por pétala, tira a blusa, tira a calcinha, até que sobrava apenas o caule, donde, espremendo-se, podia-se extrair pequenas sementes; riamos todos ainda meninos com risadas agudas e sibilantes, ao imaginar que, afinal das contas, uma bailarina pudesse também defecar.

Se eu soubesse da morte, naquele tempo, se me preocupasse de suas formas e de seus mistérios, talvez das plantas não tivesse zombado. Tantas delas e tantas formigas condenei ao nada, por diversão de menino. Ainda assim penso que para esses casos haja perdão, se é que na existência haja de fato algum tribunal; brincadeiras de menino se relevam, e assim tem sido desde muito tempo.

A maldade das plantas, no entanto, traz um certo equilíbrio à equação. Eu, antes, as matava. Elas, hoje, estão bem na minha frente, a me lembrar da morte de todas as coisas, mais que tudo de minha própria. Estava eu ali, na tentativa inútil de erguer a fronte das flores mortas, lânguidas, quando lhes senti o caule borrachudo, ja padecendo da impecável deterioração das coisas mortas, quando perdem água, no caminho inverso daquele pó primordial, gerador, para, bem sabe-se, refazer-se pó, numa combinação atômica que pode ou não ser inédita. Se não for, melhor, se pode imaginar que, então, n'algum nível de consciência, a planta possa saber-se pó, e o pó possa lembrar dos tempos que foi planta.

Tamanha beleza carregam em si essas flores que, sem resitência, pode-se apaixonar por elas. As mulheres, em tudo mais sensíveis, as amam profundamente. Pode-se presentear uma mulher com uma flor, uma muçulmana de burca, uma negra senhora quilombola, uma advogada caucasiana que preste serviços a uma fábrica de calçados; salvo algum raro fenômeno, elas sabem e sentem a beleza que carrega a flor. Ora, apaixonar-se por algo tão efêmero é sentenciar-se a um destino trágico: uma flor não dura senão aqueles poucos dias, quando está gloriosamente a desabrochar, anunciando a milagrosa transformação do vento e da água, banhados de luz do sol.
Uma flor anuncia a geração, o ser-no-mundo, o mais generoso trajeto que vai do nada à vida.

Nos dias todos que se seguem trava-se uma brutal batalha, daquelas que luta-se avisado do inevitável fracasso. As flores murcham, secam, e não há o que se possa fazer para impedí-las, não há como explica-las de que estão morrendo, sequer as haviamos informado de que primeiro viviam. Observo, esperando que, d'algum modo que desconheço, tenha sabido essa planta que existiu, e que está deixando de fazê-lo. Este é o acontecimento doloroso de tê-las, as flores, digo, em casa. Pode-se acompanhar seu processo de morte, sem dar-se conta do exato instante em que deixam de viver. Parece que vão abandonando a vida aos poucos, como quem desiste; vão perdendo a força, o ânimo, a alma. Tornam-se uma matéria desforme e borrachuda, que não se tem vontade de pegar.

O que fazem as plantas senão lembrar-nos da gloriosa conquista da vida, da beleza e força da juventude, e da inevitabilidade do ocaso?


Quarta-feira, Julho 07, 2010


Música/Poesia Portuguesa


Bico de um prego - Diabo na Cruz


Segui-te na estrada
Cantei-te para nada
Fiz montes e vales em busca de ti
Encontrei-me às portas da Morte
De tanto vergar, de tanto insistir
E, no mar, mil virgens à espera gritaram meu nome
Eu não respondi!

Sonhei que era cego
No bico de um prego
E quando acordei fui chorar escondido
Quem for Rei, virá num cruzeiro
Se eu quis ser rei foi para sê-lo contigo
Quando o Sol girar, e o Céu afundar
Ouvirás, finalmente, o que eu digo

Dei o teu retrato ao genro de um sapo
Herdei comprimidos para adormecer
Ah, e rezei à Santa Fortuna
À Deusa das Tréguas do meu querer
E a Verdade roubou um bote
De casco partido para ir morrer

A Jurisprudência
Leu-me a sentença:
Eu fora detido por parecer diferente
E morar na casca de um ovo
Sem ter cabido na cova de um dente
Quando eu quis falar ela pôs-se a andar
Tal o medo de ficar doente

Até que a Mãe-Feia
Me deu a ideia
De partir para a Guerra Santa do Sul
Ah, e talvez aí avistasse
Nalguma burka o teu olho azul
Só que o Vento ouviu no deserto
Que alguém andava perto e não eras tu

Perdido e cansado quis voltar a nado
Mas já ia longe a minha juventude
Fui deitar-me ao pé de um barraco
Adormeci num balde de crude
Quando o Sol nasceu Deus mostrou-se e eu
Defendi-me o melhor que pude!


Segunda-feira, Junho 07, 2010


Hai Kai do Difícil Ofício

Tanto artifício
Para da Mulher
Penetrar o orifício!


Sábado, Maio 08, 2010


Rir-se de si é aprender a morrer.

Já a esta hora me escapa o nome daquele que disse ser estúpido o homem que, após os 40 anos, não tenha a morte como sua maior preocupação.

Minha maior preocupação neste preciso instante é escrever estas linhas e achar-me ridículo. Fui vítima de um filme muito ruim, onde Leandra Leal representava a adolescente perturbada, cheia de afetações e com predileção à arte. Escrever era sua atividade, no filme, e ela editava um blog, e bebia, e transava, e escrevia, e chorava, e andava pelada pelo apartamento, e fumava, e bebia, e transava, e acordava de ressaca e sofria com o amor perdido e escrevia no blog mais uma vez.

Fiquei constrangido ao assistir aquele filme, mais ainda porque agora, ao ouvir o som da minha própria digitação, vêm incessantes os flashes da Leandra Leal pelada e bêbada e sozinha num apartamento, ridícula, digitando. Eu sou quase tão ridículo quanto aquela personagem.

Odeio quase tudo o que está sendo escrito neste preciso momento, palavra por palavra, apago, olhando-as pela última vez com asco.
Ainda assim escrevo, imaginando-me num filme ridículo, cuja maior sacada é captar o estrépito grotesco da tecla e tacar bem alto nos alto falantes da minha televisão pra tentar me convencer que a Leandra Leal é uma artista cheia de afetações, que bebe e transa e anda pelada pelo apartamento e escreve num blog.

Minha maior preocupação é ironizar-me. Saber-me ridículo.

Sou pobre, e ter ou não dinheiro não importa, vive-se com ou sem ele. Ou então, sem ele morre-se, o que na soma das iniquidades do mundo é indiferente. Portanto, convencer-se que grana importa é idiotizar-se, e ser um idiota é risível. Eu rio de mim pela minha preocupação com o fracasso. Dar errado é o presente maior que poderia ganhar.

Sou burro, e ser esta merdinha de iconoclasta é patético, e a tonalidade niilista de quando me sinto assim também é desconcertante. Seria a ruína, não fosse risível.

Até aí foi capaz de chegar a minha genialidade: descobrir que pode-se gargalhar frente ao nada. Gargalhar-se de si, e sentir-se pronto para o fracasso.

Mais uma vez a provocar a turma dos otimistas: dirão que, já que se pode estar pronto para o fracasso, porque não estar pronto também para o sucesso? Eu respondo metaforicamente: para não me tornar a Leandra Leal.


Domingo, Abril 25, 2010


O Panteão de Wall Street

Eu não poderia me importar menos com a crise na economia grega. Já me disseram muitas coisas sobre a Grécia, inclusive que foi justamente de lá que vieram todos os conceitos fundamentais que formam nossas sociedades ocidentais. O direito, a democracia, a matemática, a lógica, a arquitetura. Será correto que imprimamos nas primeiras páginas de nossas preocupações uma crise econômica, em detrimento de vinte e cinco séculos de história? Poucas coisas são mais sintomáticas da esquizofrenia contemporânea que o sistema financeiro. Se o George Soros amanhã acordar de mal humor, e disser que no Brasil a coisa anda feia, te cuide, você tem boa chance de perder teu emprego. Melhor mandar flores a uma meia dúzia de especuladores, antes que eles abram seus mapas aleatórios e decidam que por aqui a coisa não vai bem. Uma pena que a fertilidade imaginativa desta gente se reflita em tamanhos desajustes reais. Querem reverter a dívida grega? abram lá o arquivo do governo, veja o saldo, chame o moço da informática, e troquem o símbolo na frente do número que vier. A diferença entre menos cem trilhões e mais cem trilhões de Euros é de um dígito. Oito bits. Uma sequência binária de 8 números. Ainda mais porque nem existe tanto dinheiro impresso quanto dívidas a se pagar. Moeda imaginária não tem limite pra mais nem pra menos. Lembra quando o dinheiro era a representação de uma determinada quantidade de ouro? Vinha escrito isso na nota. Ok, pode-se dizer, tão absuro quanto, afinal, dizer que ouro é valioso é tão abstrato quanto dizer que o dinheiro o é. O ouro, entretanto, existe, materialmente. Os cem trilhões que a Grécia deve e a China tem, não. São notas, cédulas inexistentes. Só existem na memória do computador d'algum Banco Central. O que existe mesmo é a população grega, e seu território, e seus mais de vinte e cinco séculos de história. Com estes, eu me preocupo. Com os esquizofrênicos de Wall Street, nem tanto.


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Hoje eu aprendi muito. Primeiro, descobri quem é a Joelma. Aparentemente, ela tem mais influência nos meus circulos sociais do que imaginava. Outro dia comentaram sobre a altura de seus saltos, e eu, por nunca os ter visto, nem o salto nem a mulher, perguntei se Joelma seria uma de nossas colegas, do bar. Até hoje sou satirizado. O fato é que Joelma é uma cantora de música brega, que tem uma banda chamada Calipso, muito famosa nos meios televisivos. Bem, eu não costumo assistir TV aberta. Gosto de filmes, de documentários, até mesmo de seriados policiais, mas nunca a Joelma esteve por lá. O que me intriga é o absurdo social que pareceu eu não conhecer esta moça. Tamanha foi a desilusão que eu me propus a pesquisar, queria suprir minha carência, descobrir de uma vez por todas porque usavam a pobre moça Joelma como motivo de riso nos meios por onde eu circulo gracioso.

De certo, há muito o que rir de Joelma, não apenas dos sapatos, das roupas, do repertório. Mas ainda assim eu achei muito bonito aquela mulher balançando tão vigorosamente tantas partes do corpo de uma vez, com um desaviso enorme, quase ingênuo sobre quase tudo o que se convencionou chamar de belo. Era muito honesta a ignorância daquela arte, muito natural a manifestação descombinante daquelas roupas, a sexualidade exacerbada, a euforia desmedida de quem parece nitidamente estar convencida de que atingiu o mais alto grau de sua profissão. Foi lindo ver Joelma ser horripilante.

Difícil foi ver a menina Maria Gadu, que agora jaz no altar dos cultos, bajulada, cantar uma música da Kelly Key, numa versão voz e violão. Eu compreendo Maria Gadu. Ela está tentando ser o Caetano Veloso, que se dá ao luxo de cantar Um Tapinha Não Dói e ser aplaudido. Maria Gadu está se esforçando para fazer o tipo intelectuial moderno, capaz de ampliar seus horizontes de conhecimento despida de preconceitos. Falhou. Fui também pesquisar a Kelly Key, e descobri que sua versão é inúmeras vezes mais bonita que a de Gadu. Key não tem senso, não tem afinação, não tem ritmo, tem um corpo tão escultural quanto se espera, em suma, a combinação perfeita de fatores para que o feio se manifeste de maneira muito natural e espontânea. A versão de Gadu é a versão de um peixe fora d'água. Caetano, com seus quarenta e tantos anos de carreira, escreveu uma fatia considerável da música popular, boa e ruim, como o próprio Caetano. Gadu ainda não tem culhão para ser Caetano.